Jovens, álcool e direção: uma combinação fatal

A combinação entre bebida e direção é perigosa, como todos estão cansados de saber. Mas alguns motoristas ainda insistem em dirigir como se isso não fosse uma triste realidade.

Foi o que aconteceu na madrugada de hoje, em São Paulo. Patrick Brukirer Fajer, um estudante de 20 anos, dirigia um modelo de luxo da Mercedes-Benz na marginal Pinheiros, quando bateu na mureta da pista local, perdeu o controle do carro e capotou várias vezes. O carro só parou ao colidir com uma viatura da Polícia Militar, que estava estacionada 100 metros à frente do local da primeira colisão.

O forte impacto arremessou o estudante do carro, que estava sem cinto de segurança. Ele morreu na hora. Com ele estava sua namorada, Jéssica Maria de Carvalho Pinho, de 20 anos, que estava usando cinto e não sofreu nenhum ferimento. Segundo o depoimento da estudante à polícia, seu namorado havia tomado duas garrafas de vinho, e estava dirigindo a 140 km/h na marginal.

No momento da batida, ele havia retirado o cinto para pegar sua carteira no bolso. Obviamente, não foi esse breve momento de distração que provocou o grave acidente, mas sim a anterior falta de responsabilidade do jovem, algo comum no trânsito brasileiro. Mas será que todos realmente sabem o efeito das bebidas alcoólicas em nosso organismo? Será que as autoridades tem feito o suficiente para alertar a população sobre isso? Ou não importa o que se faça, tragédias como essa vão continuar acontecendo?

Efeito do álcool no corpo humano

Estudos mostram que o álcool age principalmente como um redutor de nossas inibições. Além disso, ele diminui a capacidade de agir em situações mais complexas, como dirigir um veículo. Isso acontece porque a substância é absorvida pelo estômago e intestino delgado, indo para a corrente sangüínea.

A absorção ocorre rapidamente (90% em 1 hora), mas a eliminação do álcool demora de 6 a 8 horas. Isso derruba alguns mitos, como dizer que tomar um banho gelado, ingerir café ou tomar vento fazem o álcool ser eliminado mais rapidamente. Aquela velha história de dizer que “eu conheço meu limite” também é perigosa, pois ao tomar o primeiro gole, sua capacidade de discernimento já foi afetada.

Jovens engrossam triste estatística

Não se pode dizer que apenas jovens tem essa dificuldade, mas podemos afirmar que eles são os mais irresponsáveis. O caso citado no começo desta matéria mostra bem qual é o problema: excesso de confiança. De acordo com o Ministério da Saúde, os acidentes de trânsito são a segunda principal causa de mortes entre jovens, ficando atrás apenas dos homicídios.

Dentre essas mortes no trânsito, metade estão relacionadas ao excesso na bebida. O problema não é falta de informação, pois vivemos numa era em que todos tem acesso a esses dados. Segundo alguns especialistas, a pressão dos outros jovens acaba forçando a pessoa a beber e dirigir, sem se importar com as consequências.

Como resolver o problema?

Falar sobre o problema em si pode ser benéfico, mas procurar soluções adequadas é o que resolve. Aliás, é o que pode salvar vidas. Veja cinco maneiras de melhorar a segurança do trânsito brasileiro nesse aspecto, com seus lados positivos e negativos:

1. Fiscalização: É um dos pontos mais citados. O Brasil tem leis rígidas nesse aspecto, com um limite legal de álcool no sangue de 0,06 mg/l, mais rigoroso do que o dos Estados Unidos, por exemplo. Mas a lei não resolve se ela não for aplicada. Enquanto nos EUA 1,4 milhão de motoristas são presos todos os anos por dirigir embriagados, aqui é raro ver isso acontecer.

2. Restrições para motoristas novos: Países desenvolvidos tem tido resultados expressivos ao restringir a liberdade de quem acabou de tirar sua carteira de habilitação. Alguns proíbem o acesso a vias com velocidades acima de 80 km/h, outros tem tolerância zero de álcool no sangue. O resultado? Uma diminuição de até 60% nos acidentes.

3. Diminuir o consumo de bebidas: Isso talvez geraria muitos protestos, mas o aumento na idade mínima em que se permite o consumo de bebidas alcoólicas se mostrou muito benéfico nos Estados Unidos. Lá, quem tem menos de 21 anos não pode comprar esse tipo de bebida. Claro, isso só seria eficaz se houvesse uma fiscalização rígida.

4. Campanhas mais específicas: Estudos mostram que 74% dos jovens não usam cinto no banco de trás. Campanhas falando apenas sobre um assunto, como esse, poderiam conscientizar os jovens. Alguns psiquiatras, como Jairo Bouer, destacam que as campanhas não são focadas no público jovem. “Precisamos encontrar uma fórmula mais eficaz de falar com esse público. Campanhas que usam imagens de acidentes, por exemplo, acabam distanciando-se do universo do jovem. Ele não relaciona as cervejinhas que bebe na balada com situações tão trágicas”.

5. Vias mais seguras e tecnologias avançadas: O que é comum na Europa e nos EUA, ainda é luxo aqui no Brasil. Mais de 90% (sim, 90%!) das mortes e ferimentos no trânsito ocorrem em países em desenvolvimento, como o nosso. Por isso, é urgente melhorar a segurança e qualidade das vias por aqui. Outro ponto interessante são as tecnologias que protegem os próprios motoristas irresponsáveis.

Um tipo, chamado de interlock device, só permite que o carro seja ligado depois de se fazer o teste do bafômetro. Se for constatado excesso de álcool no sangue, o carro não dá a partida. O problema é o preço. O dispositivo custa cerca de 20.000 reais por aqui.

Acima de tudo isso, precisamos estar conscientes dos resultados de uma decisão errada. Um antigo provérbio diz que “sem conselhos, os planos fracassam”. Não importa quais medidas sejam tomadas, algo precisa ser feito. Até quando teremos tragédias como a citada acima?

[Fonte: Quatro Rodas, R7 e O Dia]